Olá!

O Twitter é uma das redes sociais que mais uso, principalmente porque consigo saber de várias notícias em poucos minutos. E foi assim que vi um comentário do professor Fernando Masanori sobre como a comunidade Python é receptiva em relação a comunidade LGBTT.

Aproveitei o gancho para fazer uma entrevista sobre diversidade com ele, a Naomi Ceder que atua como chair da directoria da Python Software Foundation, ela  também é a co-fundadora do Trans*Code, um hackday para a comunidade trans, com eventos no Reino Unido, Suíça e EUA. (http://trans.tech, @trans_code) e a desenvolvedora de software Mirian Retka e já posso adiantar que ficou demais!

Blog: Como é o trabalho do projeto Python para promover a diversidade? é algo direcionado para o público LGBTTT ou abrange mulheres, negros e minorias em geral?
Naomi: O trabalho começou principalmente dirigido para as mulheres em geral. Então, à medida que o foco se ampliou, as pessoas LGBT e outras minorias tornaram-se mais visíveis e aceitas. Isso aconteceu primeiro nos EUA, mas agora também está acontecendo no Reino Unido, Europa, Brasil e outros paises.
Em 2014, na PyCon US, tivemos nosso primeiro encontro de Pythonistas LGBT e todos ficamos surpresos com o fato de que 15 de nós estivéssemos na conferência. Agora estamos muitos mais.
Fernando: Como a Naomi disse no seu Keynote na Python Brasil, as comunidades em cada país estão procurando promover não só a diversidade, mas também a inclusão de qualquer tipo de pessoas. Eu trabalho no grupo de trabalho que aprova pedidos de verba para projetos. A composição deste grupo dá uma ideia do esforço pela diversidade, onde você verá pessoas da África, Índia, América do Sul representadas. Em vários pedidos de verba para conferências, eu sou testemunha de que houve um questionamento para pedidos de eventos onde não houvessem poucas ou nenhuma mulher nas palestras. Além disso *nenhum* pedido é concedido a um evento, qualquer evento, que não tenha Código de Conduta. E não qualquer CoC, mas que possuam garantias mínimas, segundo um padrão adotado pela PyCon US.

Blog:Como vocês atuam para evitar a discriminação na comunidade Python? é algo da comunidade internacional que é disseminado para os países onde existe a comunidade ou existem ações específicas em cada país?
Naomi: Desde a minha transição, sempre fui muito aberta sobre ser trans. Em uma comunidade como a nossa, acho que isso ajuda as pessoas a se sentir mais à vontade. Eu também sempre tentei ser muito claro que meu interesse é em Python e em ajudar a comunidade Python, e eu acredito que as pessoas apreciam isso. Vi um pouco de discriminação, mas foi porque sou mulher, não porque eu sou trans. :-/
Eu diria que o movimento pela diversidade é internacional dentro da comunidade Python. No caso das pessoas LGBT, isso é mais difícil, por exemplo, em alguns países africanos, mas até mesmo eles estão fazendo o que podem. Eu diria que o fato de que eu, como mulher trans, fui convidada a dar palestras keynote em vários países, incluindo a Polônia, Espanha, Colômbia e sim, o Brasil, é uma experiência muito positiva. 🙂

Fernando: Além do statement de diversidade que você citou, eu gosto de citar também o da comunidade Django, um dos frameworks mais utilizados em Python. A experiência mais positiva, que eu vivenciei, foi ter participado da PyCon Namíbia, o país possui um imenso deserto, então muitos foram apenas para ajudar. Naquela conferência eu conheci a Aisha Bello, que foi coach comigo no Django Girls que ajudamos em Windhoek, capital. Ela organizou, pouquíssimos meses depois, em Lagos, na Nigéria, um Django Girls, que se multiplicou em *trinta e um* workshops para mulheres! Ela plantou uma semente que mudou a realidade de um país inteiro. Iniciativa de uma mulher. Como isso é apoiado pela Python Software Foundation? Todo workshop pode pedir um grant para a PSF, concedemos $25 por aluna que participa, por exemplo se forem 40 alunas, terão $1000. Isto ajuda a pagar o transporte de monitoras de outras cidades, para locais aonde ninguém conhece Python/Django. A Aisha me comentou que algumas empresas estão mudando de stack, outras linguagens, para Python, dado ao ecosistema que está sendo criado.
Outro exemplo memorável é a PyCon Zimbabwe, eles solicitaram um grant para a conferência, já que num país com 90% de desemprego é difícil ter patrocinadores. Pela lei americana a PSF não pode enviar dinheiro para um regime como o do Zimbabwe. O que foi feito? O grant foi redirecionado para uma palestrante da Nigéria, que agora é diretora da PSF.
Aqui no Brasil eu divulgo bastante esse trabalho feito na África. Isso tem aumento a participação de meninas da África que moram no Brasil. Em Salvador eu fui monitor de uma designer de Cabo Verde. Em Natal uma moça que me conheceu no Facebook, de Guiné Bissau, participou do Django Girls.

Blog: Li o código de conduta (www.python.org) e não encontrei nada especificamente sobre diversidade, vi que no site tem um tópico separado sobre esse assunto (https://www.python.org/community/diversity/). Gostaria de saber se não foi necessário mencionar a diversidade no código de conduta e quando o código de conduta é revisado.
Naomi: Atualmente acabamos de formar um grupo de trabalho PSF para trabalhar no Código de Conduta. Foi criado quando códigos de conduta não eram comumente aceitos e por isso era muito geral. A declaração de diversidade é muito mais específica e foi adicionada para tornar clara a intenção. Pensamos que é hora de fazer mais trabalho sobre este assunto.
Fernando: Temos um novo CoC no Brasil. A experiência que temos é que um CoC grande, verboso e muito detalhista, não é lido por palestrantes, assistentes e muito menos por patrocinadores. Achamos ser mais eficaz ter fisicamente um time de resposta, como descrito no CoC Handbook. No início da conferência é apresentado o time de resposta, composto por vários casais, explicando brevemente a ideia. Eu participei do time de resposta da última Python Brasil, que teve 600 participantes no total, e creio que foi bastante eficaz. Eu não vi essa implementação em nenhum evento que participei das outras comunidades: FISL, Latinoware, TDC, JSBrazil, JavaOne, etc.
Miriam: Não sei dizer qual é o período de revisão do CdC, participei de alguns hangouts para discutir a versão mais recente. Por conta dos acontecimentos desse ano, não deu pra  eu contribuir muito, além de que eu comecei a ir em eventos de tecnologia apenas este ano, como mulher.

Eu diria que o fato de que eu, como mulher trans, fui convidada a dar palestras keynote em vários países, incluindo a Polônia, Espanha, Colômbia e sim, o Brasil, é uma experiência muito positiva. Naomi

Blog: Em geral, nas comunidades da área de TI existe muita interação online. Por exemplo, no caso do público LGBTTT,  houve alguma situação da pessoa ser novata na comunidade e usar um nickname e só depois mencionar que era transexual?
Naomi: Eu fazia parte das comunidades Python e Linux por muitos anos antes da minha transição. Quando eu anunciei que eu era Trans, ambas as comunidades eram apoiadas, especialmente a comunidade Python. A maioria das experiências que ouvi foram positivas. O mesmo é verdade para as pessoas LGB, exceto em muitos lugares, isso é menos um problema.
Fernando: A Naomi é trans, e foi muito bem recebida, tanto no mundo online e físico. Acho que a comunidade brasileira é bem receptiva neste aspecto. Eu participei do grupo de trabalho, junto da Míriam (que indiquei), para elaborar o novo CoC, também foi reconhecer que é uma pessoa, como qualquer outra. Talvez a Naomi não se lembre, mas eu acompanhava suas postagens, antes da mudança, e lembro bem quando ela anunciou que iria fazer a operação. Acompanhei quando disse que pensava em participar menos da comunidade, e como várias pessoas deram seu apoio para que continuasse, já que ela era reconhecida pelo que faz como pessoa. E foi nesse momento em que eu passei a ter um carinho maior pela comunidade Python, pois antes era apenas devido a sua aplicação com Ensino de Programação.
Miriam: Essa é justamente a minha situação. Por enquanto só falei que sou trans no TechLadies e para o grupo das PyLadies, além de um outro grupo de Linux onde eu participava e  senti que o ambiente era um pouco mais acolhedor.
O que aconteceu ano passado comigo, enquanto estava explorando meu gênero, foi parecido. Entrei com um nickname nesse grupo das PyLadies no Telegram ano passado, na época não tinha as palavras certas pra me definir. O grupo não me barrou, eu não interagia muito também, mas não senti nenhum incômodo em ter uma pessoa que não se apresentou por lá… o que aconteceu foram casos isolados de membros do grupo perguntando se eu não era um menino “infiltrado”. Mais uma vez, o grupo não se incomodou.
Mais um vez, eu não estive tão presente na comunidade esse ano por causa do processo de transição.

Blog: Como funciona a questão da diversidade na seleção de palestras da Python Brasil?
Fernando: A submissão é feita por uma plataforma, chamada Speakerfight, onde os palestrantes são escolhidos pelos votos das pessoas, sem quota. A comunidade então é que dá a sua determinação pela inclusão. No ano passado 42% de palestrantes foram mulheres, neste ano 41%. Eu não encontrei estes números em nenhuma conferência, onde os palestrantes fossem livremente escolhidos. No entanto os Keynotes são escolhidos pela organização. Como você já sabe, eles escolheram uma trans para falar sobre Diversidade e Inclusão. Neste ano o Humitos (Manuel Kaufman) que leva a inclusão pelas cidades da América do Sul e a Paola Katherine (primeira brasileira a ser diretora da PSF yay!!). Quando eu cumprimentei a Paola pela sua eleição, ela simplesmente me respondeu: “Estou mais feliz por saber que sou uma pessoa comum que conseguiu votos pra entrar…” eu acho muito positivo termos exemplos de pessoas que não se acham o rei da cocada preta. O processo não é perfeito, pois a equipe é pequena, depois da escolha dos Keynotes alguém disse que não haviam representantes negros. É uma experiência para o próximo ano….

Blog: Já teve alguma ocorrência de discriminação durante a Python Brasil? Se sim, como foi solucionado?
Naomi: Não sei. Em minha própria experiência como uma “keynote” em 2016 todos foram muito acolhedores. Parecia que outras pessoas LGBT também eram aceitas. Acho que não havia outras “out” pessoas trans quando eu estava lá, mas várias pessoas mencionaram que conheciam as pessoas trans. E agora conheço várias desenvolvedores trans brasileiros (claro incluindo a Miriam 🙂 ).
Fernando: Eu participei do time de resposta. Tivemos 7 ocorrências na Python Brasil 2016. Duas relativas à contato físico não desejado. Duas no Telegram tirando sarro dos evangélicos que faziam um evento no primeiro dia (brincadeiras). Dois eventos nas palestras, uma deixou de ser mantida nas gravações, pois passava um vídeo de mulheres na condição de objeto sexual, numa típica propaganda de cerveja. E uns rapazes que depreciavam o Django Girls, por ser organizado por mulheres. Conversamos em particular com os envolvidos, segundo o modo descrito no Handbook acima, e tudo se resolveu. Alguns infratores postaram publicamente seu arrependimento. Duas moças escreveram em grupos e blogs o quanto foi gratificante ter um time de resposta para tratar do CoC.

Blog:  Quais iniciativas ou dicas vocês podem mencionar para quem busca desenvolver ações para promover a diversidade em projetos de tecnologia?
Naomi: Tem muitas iniciativas – Lesbians Who Tech, Black Girls Code, etc. e muitas que não são ativas a nível internacional, mas estarão dispostas a apoiar os esforços em outros países.
Nossos eventos de Trans*Code foram muito bons para muitas pessoas trans e aliados trans, e eu adoraria ajudar alguns grupos no Brasil a realizar eventos de Trans*Code. Eles poderiam enviar por email info@trans-code.org ou tweet no @trans_code para obter mais informações.
Em geral, a coisa mais importante é fazer a diversidade e a inclusão um objetivo consciente.
Fernando: A iniciativa: Django Girls é um workshop que tem instruções para tudo: quanto vou gastar, quantas pessoas preciso, o site faz tudo. PyLadies estão crescendo muito em várias cidades, acho que são umas 23 atualmente.
Dica: que as mulheres/LGBTTT’s sejam protagonistas, para que as ações sejam sustentáveis.
Procurar outros públicos que não sejam de exatas. Eu estou dando cursos de Raspagem de Dados para jornalistas, economistas, advogados e linguistas. Em São Paulo, para 50 vagas, só para mulheres, apareceram 2500 interessadas, das quais 534 fizeram a inscrição. Fotos aqui. Eu recebi uma proposta para um workshop na ThoughtWorks só para o público LGBT. Eu dei esse minicurso em Maceió, Salvador, Manaus, São Carlos, Campinas. Irei dar ainda em Brasília, Joinville, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Três Corações, Santa Rita do Sapucaí. Quais os frutos? Em Maceió, uma oficial de justiça participou do workshop, e irá fazer Engenharia de Computação em 2018, na UFAL. Em Salvador há um grupo de Dados Abertos. Em Manaus jornalistas estão me ajudando a mapear os refugiados venezuelanos. Meninas de SP que fizeram o curso montaram um grupo de Raspadoras de Dados, outras estão dando o curso nas suas faculdades

1 Comment on Como a comunidade Python trabalha em prol da diversidade?

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