A busca por maior representatividade feminina nas áreas de STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) é também uma questão de família. Em setembro de 2015, quando preparava os slides para uma apresentação no primeiro evento organizado pelo grupo Women Techmakers de Curitiba comecei a refletir sobre as razões que me levaram a ser uma mulher na área de Computação.

Nas minhas reflexões comecei agradecendo ao meu avô materno que incentivou minha mãe a estudar. Minha mãe é uma excelente professora de inglês que sempre foi um exemplo de profissional apaixonada pelo seu trabalho e orgulhosa pela independência financeira que este trabalho sempre proporcionou. Minha avó materna, ao contrário, foi impedida de estudar pelo meu bisavó pois como ele dizia: “mulher não precisa saber ler e escrever, senão vai ficar por aí escrevendo carta para namorado”.

Continuei agradecendo aos meus pais que sempre me incentivaram a estudar e nunca questionaram a minha escolha pela área da Computação. Estavam comigo e sempre sentiram orgulho das minhas conquistas. A lembrança dos olhos deles marejados de lágrimas quando conclui a graduação, na defesa do mestrado, na defesa do doutorado, na aprovação de todos os concursos que fiz, aquecem o meu coração, e indicam que estou no caminho certo.

No início do semestre letivo de 2016, em uma conversa com calouros de cursos da área de Computação de uma universidade pública em uma capital do sul do Brasil, ouvi algo preocupante de UM estudante, sim, um homem. Quando ele disse para os pais que iria fazer Ciência da Computação os pais questionaram: “Tem certeza? Você não prefere fazer outro curso? Este curso é curso de maluco!”

Isto indica que precisamos desmistificar a Computação para as famílias. Pais, mães, avós, tios, tias, primos, primas, a família toda precisa ter noção de que trabalhar com Computação é algo muito gratificante! É ter a oportunidade de criar! Criar propostas computacionais que podem melhorar a vida das pessoas. Até podemos ser um “bando de malucos” mas somos malucos do bem! Pessoas em busca de um mundo melhor.

Para que tenhamos mais mulheres na área de STEM também é preciso que as tarefas domésticas sejam divididas entre a família. As campanhas publicitárias já começam a ilustrar esta necessidade de mudança. Em fevereiro de 2016 foi divulgado um comercial indiano de uma marca de sabão líquido que mostra um pai refletindo sobre a criação que deu para sua filha e os reflexos disto na vida dela. E a partir desta reflexão o próprio pai repensa sobre suas atitudes e começa a mudar.

Precisamos também que os cuidados com os filhos sejam compartilhados pelo casal. Já começamos a ver mudanças nas leis do país que aumentam o período da licença paternidade. É uma conquista de homens e de mulheres.

É preciso que a mulher receba apoio de sua família para que possa trilhar uma carreira digna e de sucesso, seja ela na Computação ou em qualquer outra área. É preciso uma família em harmonia, um(a) parceiro(a) compreensivo(a) que apoie e estimule a sua vida profissional. Mas é preciso também que as empresas ofereçam benefícios para mães e pais. Se a educação dos filhos deve ser compartilhada, também os pais devem ter o direito de se ausentar do trabalho para levá-los ao médico, participar dos eventos organizados pelas escolas, entre outros.

Mudar a postura da família e de todos os seus membros não é algo trivial, pelo contrário, é um grande desafio. Isso exige uma mudança cultural. E pode levar muito tempo. Mas é preciso iniciar esta mudança, acelerar esta mudança com urgência. Há muito o que fazer. Se você é um(a) profissional da área de Computação conte para sua família, conte para o mundo, como é incrível o trabalho que você faz. Se você está com uma mulher divida com ela as responsabilidades da casa, assuma sua parte. Se vocês têm filhos, descubra a maravilhosa aventura de educar um ser humano e participar do seu crescimento e evolução. Se você é responsável por uma empresa ofereça condições dignas de trabalho para os seus funcionários, para que eles possam ter uma vida em família com qualidade. Seja você quem for, faça a sua parte por mais mulheres na Computação! Todos somos responsáveis por esta mudança!

 

Texto enviado por:

silvia

Sílvia Amélia Bim

Docente do Departamento Acadêmico de Informática da Universidade Tecnológica Federal do Paraná em Curitiba

Bacharel em Ciência da Computação (UEM), Mestre em Ciência da Computação (UNICAMP), Doutora em Ciências – Informática (PUC-Rio)

Secretária adjunta da Regional Paraná da Sociedade Brasileira de Computação (SBC)

Coordenadora do Programa Meninas Digitais da SBC

http://sbc.org.br/institucional-3/meninas-digitais

Coordenadora do Projeto Emíli@s – Armação em Bits

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