Olá pessoal,

No mês passado terminei de ler o livro “Só por prazer – Linux, os bastidores da sua criação” do David Diamond. Esse livro conta a história de Linus Torvalds e o processo de criação do Linux, pensei que seria uma leitura um pouco entediante e fui surpreendida positivamente com uma leitura muito fácil.

Nesse momento, alguns devem estar pensando o que isso tem a ver com um blog sobre mulheres e tecnologia? Pois bem, fiz essa relação quando foi explicado sobre como surgiu o interesse do Linus por computadores e isso aconteceu quando o avô dele comprou um. Vou reproduzir o trecho e em seguida vou explicar.

“(…) Ele via esse seu novo brinquedo sobretudo como um brinquedo, mas também como uma magnífica calculadora. (…) Meu avô também podia agora fazer em casa muitas das coisas que fazia com os computadores grandes da universidade. E ele queria que eu participasse dessa experiência. Também tentava fazer com que eu me interessasse por matemática.

Eu sentava no colo dele e ele me fazia digitar os programas que escrevera cuidadosamente no papel porque não se sentia muito à vontade com computadores. Não sei quantos outros pré-adolescentes sentaram nos escritórios de seus avôs, aprenderam a simplificar expressões aritméticas e a digitá-las com precisão em um computador, mas lembro-me de ter feito isso. Não me recordo do tipo de cálculo, e não acredito que tivesse a menor ideia do que estava fazendo, porém eu estava lá e ajudava meu avô.

É provável que tenhamos levado muito mais tempo do que ele levaria se fizesse o trabalho sozinho, mas quem pode garantir? Cresci me sentindo à vontade com o teclado, o que nunca aconteceu com ele. Eu fazia isso depois da escola, ou sempre que minha mãe me deixava no apartamento de meus avós. Comecei a ler os manuais do computador e a digitar os programas oferecidos como exemplo. (…) Assim, se fizesse certo, você se deparava com um sujeito que caminhava pela tela, em gráficos defeituosos. E aí conseguia modificá-lo e fazer com que ele caminhasse pela tela em diferentes cores. Você simplesmente conseguia fazer isso. É a melhor sensação que existe. ”

Li esse trecho e logo veio uma mensagem interessante, a de que os adultos podem ensinar e influenciar positivamente as crianças. No caso do Linus, ele se tornou uma figura muito respeitada e conhecida na sua área, mas não estou falando que devemos fazer isso para criar pessoas famosas, estou falando que podemos aproveitar a nossa influência e mostrar para os pequenos novos horizontes. Quem garante que o Linus seria quem é hoje se o avô dele não tivesse apresentado um computador? Na verdade, nunca saberemos a resposta, mas certamente isso influenciou ele, até porque no final do texto ele se mostra encantado com a possibilidade de configurar os seus próprios programas.

Agora algumas pessoas podem indagar: A intenção é fazer todas as crianças serem programadores?

A resposta é não, elas não serão necessariamente programadores. Depois de ler o livro lembrei de um vídeo do TED da Clare Sutcliffe, que apresenta uma iniciativa para ensinar crianças a programar. Um dos argumentos usados para justificar essa ação é a de que ensinar programação as crianças pode estimular a criatividade, auxiliar no aprendizado de disciplinas como matemática ciência e tecnologia, além de ser uma opção de carreira. Então, não vamos criar uma massa de programadores, podemos usar a programação para melhorar em outras áreas. Como é de conhecimento comum, no Brasil existe um grande déficit de aprendizado em matemática e nas ciências exatas, se utilizássemos a programação para crianças poderíamos melhorar esse cenário?

Um ponto interessante da palestra é quando ela menciona uma pesquisa feita com programadores, eles responderam a seguinte pergunta. “O que inspirou você a programar?” Como resultado, 62% das respostas dizia que foi fazer algo por conta própria. Ao ver isso logo lembrei do Linus feliz em fazer o “sujeito” caminhar na tela em diferentes cores!

A geração das crianças de hoje em dia são conhecidas também como nativos digitais, ou seja, elas já nasceram em uma sociedade que permite o fácil acesso à tecnologia e elas estão habituadas porque já nasceram nesse ambiente “digital”. Segundo Marc Prensky os nativos digitais fazem parte de uma geração que nascem a partir dos anos 90 e cresce imersa nas tecnologias, por isso não tem um deslumbramento, eles estão integrado a ela e essa integração facilita o acesso as informações. Pensando nisso lembrei de algo corriqueiro, quem nunca ficou impressionado ao ver que uma criança de 5 anos consegue utilizar um smartphone tão bem quanto um adulto?

A iniciativa apresentada mostra uma experiência em ensinar programação usando o Scratch para as crianças aprenderem algumas noções de programação. Já no primeiro feedback do projeto foi muito positivo, com 92% das crianças que participaram do projeto classificaram como divertido. Após esse resultado, a palestrante comentou que tinha a expectativa de ter algo em torno de 20 clubes no modelo que eles implementaram, mas para surpresa dela, conseguiram montar 300 clubes no Reino Unido, cada um composto por 15 crianças.

No Brasil já vi alguns cases usando o Scratch e também o Primo que tem uma cara de brinquedo e é bem aceito pelas crianças, e assim como no projeto da Clare, os resultados também foram positivos. A minha esperança é de que no futuro possamos incluir esse tipo de atividade para crianças do ensino público. O lado legal do Scratch é a facilidade de encontrar material na internet, também já vi o pessoal de Software Livre comentando sobre esse assunto e oferendo em oficinas.

Acredito que podemos ensinar as noções de programação para as crianças sem a expectativa de que elas virem um Linus Torvalds, mas para que elas, que já nasceram em um mundo com tanta tecnologia, sejam produtoras de conteúdo e não somente consumidoras.

Sou da opinião que esse tipo de iniciativa pode também colaborar para o aumento do número de mulheres na área de tecnologia e ciências exatas. Porém, acredito que na abordagem infantil seja mais interessante fazer as atividades para meninos e meninas do que segmentar e oferecer a oficina exclusivamente para meninas.

O texto ficou maior do que o normal, espero que tenham lido até o final. 🙂

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